terça-feira, 22 de Abril de 2014

LER A LIBERDADE

ROSAS VERMELHAS


Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
           E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia doze de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.


Nesse tempo o sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do Mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
– Mãe!
e logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
– Mãe!
e logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia doze de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do país. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:
– Mãe!
a voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.
No dia doze, não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez - quem sabe? - às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, de uma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.

(Manuel Alegre, in Praça da Canção. Passagens seleccionadas)



VAI-SE O CANTO   VÃO-SE AS ARMAS

Não sei se as pedras andam.
Mas o meu país é pedra
e anda. Desloca-se. Foge.
Pula ribeiros nas pernas
do povo. Salta fronteiras
nas minhas pernas. Rasteja.
Nada. Esconde-se. Atravessa
montanhas. Desaparece.
Disfarça-se. O meu país
deixou de ser país. É
qualquer coisa que caminha.
Que se procura. Saudade
de ser Pátria. País em
movimento. País sem
chão. Assim cortado
pela raiz. O meu país
é feito de dois países:
um é dono o outro não.
Fica o dono e vai-se o outro.
O que se fica tem tudo
o que se vai nada tem:
nem terra para ficar
nem licença para ir.
O meu país não é dono.
Não tem licença de nada.
País clandestino. Pedra
ambulante. Chão que sangra.
Que caminha. Pula
ribeiros. Corre. Derrama-se.
E vai-se com ele a força
a guitarra a pena a foice.
Vai-se o canto. Vão-se as armas
Manuel Alegre, in, O Canto e as Armas (1967)

quarta-feira, 19 de Março de 2014

ARQUITECTURA MANUELINA

A arte manuelina desenvolveu-se em Portugal em finais do séc. XV e início do séc. XVI, sobretudo durante o reinado de D. Manuel I, rei de quem deriva o nome do estilo.
Vimos, na aula, que o manuelino utiliza elementos de outros estilos a que associa uma decoração muito original. Essa ornamentação é profusa e exuberante.

A decoração manuelina serve-se, essencialmente, da simbologia (heráldica) régia associada a D. Manuel I: esfera armilar; cruz de Cristo; coroa régia; escudo. Associa, ainda, numerosos elementos vegetalistas além de outros que costumamos relacionar com os Descobrimentos (cabos náuticos).

A arte manuelina gosta do espaço preenchido. De destacar que também os fustes das colunas são alvo dessa decoração (repara, por exemplo, nas colunas do mosteiro dos Jerónimos). Usa-se, frequentemente, a coluna torsa (ver imagem da Sé da Guarda).

Eis, agora, algumas imagens de obras-primas da arquitectura manuelina:

Igreja dos Jerónimos
. Repara no belíssimo efeito decorativo provocado pelas colunas e arcaria.


Esse efeito está bem patente nesta belíssima fotografia da autoria do vosso professor de EV, Dr. Raul Coelho (ver aqui).......
À esquerda: claustro de D. João III (Convento de Cristo em Tomar). Ao fundo, estilo manuelino; à frente, estilo clássico renascentista. Compara os dois estilos e perceberás melhor as diferenças.

À direita: o mesmo espaço fotografado de outra perspectiva.


Convento de Cristo em Tomar: fachada da sala do capítulo. Esta fotografia foi
retirada daqui









Interior da Sé da Guarda. Repara na coluna torsa.












Foram vários os arquitectos ligados ao estilo manuelino, mas destacam-se:
Diogo Boitaca (Igreja de Jesus em Setúbal; Mosteiro dos Jerónimos, etc.);

Mateus Fernandes (Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha);

Diogo Arruda (Convento de Cristo em tomar);

João de Castilho (Capela-mor da sé de Braga; Mosteiro dos Jerónimos)

Nota: uma breve pesquisa pela internet fornece numerosas imagens de edifícios de estilo manuelino. Sobre a Igreja dos Jerónimos, para que percebas melhor a relação com a função religiosa, aconselho que visites a página da Paróquia de S.ta Maria de Belém (clica nas palavras).

quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

VENTOS



Entra aqui para melhor compreenderes as dificuldades da navegação à vela.


segunda-feira, 13 de Janeiro de 2014

DOBRAGEM DO CABO BOJADOR


Antes de mais, caros amigos, vamos lembrar-nos do que era o Mundo conhecido no início do séc. XV, para tentarmos perceber a dimensão da coragem de quem se atreveu a enfrentar o desconhecido e para nos não rirmos dos medos de quem se não atreveu. Para isso apresento-vos um mapa já vosso conhecido mas que, aqui, podeis ver em tamanho grande (basta clicar sobre a imagem)


Que salta à vista? O desconhecimento!Provavelmente, sabemos hoje mais sobre o Universo do que sabíamos sobre a Terra no Séc. XV! Mas houve quem se não conformasse em não saber e houve quem se vestisse de coragem e avançasse. Todos somos devedores desses Homens. E eram portugueses! Escutemos a voz do tempo, que é a do cronista Gomes Eanes de Zurara:

[O Infante D. Henrique] tinha vontade de saber a terra que ia além das ilhas Canárias, e de um cabo que se chama do Bojador, porque até àquele tempo, nem por escritura nem por memória de nenhuns homens, nunca foi sabido determinadamente a qualidade da terra que ia além do dito cabo.

(…) E porque o dito senhor quis disto saber a verdade (…) mandou contra aquelas partes seus navios, para haver de tudo manifesta certidão, movendo-se a isso por serviço de Deus e del-Rei D. Duarte seu senhor e irmão, que àquele tempo reinava. E esta até que foi a primeira razão de seu movimento.

(…) O Infante (…) começou de aviar seus navios e gentes, (…) mas tanto que para lá enviasse muitas vezes (…) homens [treinados na guerra], nunca foi algum que ousasse de passar aquele cabo do Bojador para saber a terra de além, segundo o Infante desejava.

(…) «Como passaremos – diziam eles – os termos que puseram nossos pais, ou que proveito pode trazer ao Infante a perdição de nossas almas juntamente com os corpos? (…) É claro – diziam os mareantes – que depois deste Cabo não há gente nem povoação alguma; a terra não é menos arenosa do que os desertos da Líbia, onde não há água, nem árvore, nem erva verde; e o mar é tão baixo, que a uma légua de terra não tem de fundo mais do que uma braça. As correntes são tamanhas, que navio que lá passe, jamais poderá tornar? (…)»

E finalmente, depois de doze anos, fez o Infante armar uma barca da qual deu capitania a um Gil Eanes seu escudeiro, (…) o qual seguindo a viagem dos outros, tocado daquele mesmo temor, não chegou mais que às ilhas de Canária, donde trouxe certos cativos com que se tornou para o reino. E foi isto no ano de Jesus Cristo de mil quatrocentos e trinta e três.

Mas logo no ano seguinte, o Infante fez armar outra vez a dita barca, e, chamando Gil Eanes de parte, o encarregou muito que todavia trabalhasse de passar aquele Cabo (…) como de feito fez, menosprezando todo o perigo, dobrou o Cabo a além, onde achou as coisas muito pelo contrário do que ele e os outros até ali presumiam.
– « E porque, senhor, – disse Gil Eanes –, me pareceu que devia trazer algum sinal da terra (…) apanhei estas ervas que aqui apresento a Vossa Mercê, as quais nós em este reino chamamos rosas de Santa Maria».

E acabado assim o recontamento de sua viagem, fez o Infante armar um barinel, no qual mandou Afonso Gonçalves Baldaia que era seu copeiro, e assim Gil Eanes com sua barca, mandando que lá tornassem outra vez, como de feito fizeram e passaram além do cabo cinquenta léguas, onde acharam terra sem casas e rastro de homens e de camelos.

Gomes Eanes de Zurara, Crónica de Guiné, cap. VII-IX







RESPONDE,UTILIZANDO PALAVRAS TUAS:

1 – Quem é o responsável por tomar a iniciativa dos Descobrimentos?

2 – Enumera os motivos que o Infante D. Henrique tinha para mandar avançar mar dentro.

3 – Enumera os motivos que eram apresentados ao Infante para se não avançar para lá do Cabo Bojador.

4 – Quem eram os homens enviados pelo Infante?

5 – Quantas tentativas foram feitas para dobrar o Cabo Bojador?

6 – Quem dobrou o Cabo Bojador? Em que data?

7 – Como se dizia que seria a terra além do Bojador?

8 – Como era a terra que foi descoberta?

9 - Quem fez a segunda viagem? Em que data? Com que navios? Até onde se descobriu, sabendo-se que a légua marítima corresponde, mais ou menos, a 5Km?

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Nota: Já agora, ficas a saber que os navegadores da segunda viagem chamaram Angra dos Ruivos à baía onde desembarcaram. Deram-lhe esse nome devido ao grande número desses peixes (os ruivos) que lá existiam.

terça-feira, 12 de Março de 2013

PINTURAS DE GRÃO VASCO

Tal como vos tinha dito, vamos trabalhar conjuntamente os temas de História e de Educação Visual. Para tal, e para não precisarem de procurar muito, publico aqui três pinturas de Grão Vasco (Vasco Fernandes). A primeira já a tinha publicado no artigo sobre a pintura do Renascimento, por isso, só não conhecem as restantes. E são uma maravilha, como podem constatar!

Bom trabalho!

Vasco Fernandes, S. Pedro

 Vasco Fernandes, Natividade

 Vasco Fernandes, S. Paulo

Vasco Fernandes, Criação dos Animais

segunda-feira, 4 de Março de 2013

A ESCULTURA DO RENASCIMENTO


Também os escultores renascentistas se inspiraram directamente nos modelos clássicos. As suas figuras – nomeadamente a figura humana – são representadas de forma harmoniosa e com um realismo notável para o qual contribui o estudo profundo da anatomia. Tal estudo revela o desejo de perfeição que estes escultores sempre almejaram alcançar.



É igualmente da Antiguidade Clássica que se recupera a representação do nu humano e as figuras equestres.



Ghiberti e Donatello são dois nomes grandes da escultura renascentista, mas foi com Miguel Ângelo que ela atingiu um grau de perfeição dificilmente alcançável. Repara no dinamismo, no vigor ou no dramatismo que este artista admirável consegue imprimir a todas as suas obras!




Ghiberti: Portas do Paraíso








Agora vou calar-me porque quero, apenas, que te deixes encantar pelas imagens. Já sabes: para ampliar é só clicar sobre as figuras.






Donatello: David.................................................. (David: pormenor)







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"foi Miguel Ângelo quem a fez"


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Miguel Ângelo: Escravo(inacabado) ............ Miguel Ângelo: Escravo

Posso propor um exercício? Que tal, se comparassem as representações de David feitas por Miguel Ângelo e por Donatello? Quereriam ambos representar o mesmo aspecto da personagem?Nota: para quem se não lembra, recordo que David foi o pequeno israelita que derrotou o gigante Golias com uma funda e que, depois, se veio a tornar no mais importante rei de Israel.


terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

RENASCIMENTO: A PINTURA

É magnífica, a pintura renascentista. Além do apuramento técnico, há muito a observar sobre esta forma de arte.

Comecemos pela atenção ao pormenor, bem visível nas pinturas do Norte da Europa. Destacamos Van Eyck, com aquela pintura que analisámos com tanto cuidado na aula. Repara bem na mestria com que estão pintadas as roupas das pessoas. E o cão? E o espelho (olha para o pormenor, apesar de a reprodução ser de pouca qualidade)? Já vês melhor o ponto de fuga? Segue, de novo, as linhas oblíquas com o olhar.



Ninguém diria que existe tanta racionalidade no estudo prévio, de tal modo tudo parece natural. Mas se repararmos bem em todas as pinturas, constataremos a grande preocupação com o equilíbrio da composição e a distribuição das formas. É assim, ou não? Se repararmos melhor, verificaremos como é frequente, tal como na escultura, a composição piramidal.








Rafael, A Escola de Atenas

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.Leonardo da Vinci, Virgem dos Rochedos............. Leonardo da Vinci, Santa Ana, a Virgem, o Menino e S. João Baptista

De seguida, observemos o naturalismo que os pintores procuram alcançar: ser fiel à realidade, retratar tudo como se fosse verdade é um grande desafio para os pintores, mesmo quando pintam figuras mitológicas ou que nunca conheceram. Reparemos, ainda, como a natureza está presente em grande número destas pinturas. Na verdade, os pintores renascentistas tiveram o cuidado de, na pintura, demonstrarem o apreço pela natureza e o conhecimento que dela têm.

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...Sandro Boticelli, Nascimento de Vénus.................... 
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Sandro Boticelli, Nascimento da Primavera

Vejamos, ainda, a diversidade dos temas tratados: religiosos, mitológicos (greco-romanos), cenas da vida quotidiana, retratos, etc. É frequente o recurso à figuração do nu, mostrando, com isso, o apreço pela Antiguidade Clássica e a valorização do corpo humano.



Miguel Ângelo, tecto da Capela Sixtina



Miguel Ângelo, Juízo final (parede do fundo da Capela Sixtina)




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Capela Sixtina, visão geral........................Capela Sixtina (pormenor da Criação do Homem)


Tal como por toda a Europa, também em Portugal se pintou segundo os modelos clássicos e foram utilizadas as novas técnicas: pintura a óleo e perspectiva. Entre nós, no entanto, é flagrante a influência da pintura do Norte da Europa, devido às estreitas relações económicas e políticas que ligam a Flandres a Portugal.

O mais notável exemplar da pintura portuguesa são os painéis de S. Vicente de Fora, políptico atribuído a Nuno Gonçalves. Aqui ficam, numa montagem que não está lá muito bem feita, mas que foi o melhor que consegui fazer.



O pintor português que mais obra nos legou foi Vasco Fernandes que, por ser tão importante, ficou conhecido por Grão Vasco. São dele as duas pinturas seguintes. Procura interpretá-las, exactamente, do mesmo modo que interprestaste as anteriores.




Grão Vasco, S. Pedro




Grão Vasco, Pentecostes


Espero que tenhas sentido, pela arte renascentista, o mesmo deslumbramento que eu sinto. Ficaria muito feliz!